Sylvia não sabe dançar
Cris melhora a cada livro. Impressionante. O segundo romance é pura angústia, uma espécie de “O estrangeiro” em versão atualizada.
Ficha: LISBÔA, Cristiane. Sylvia não sabe dançar. São Paulo: Mercuryo Novo Tempo, 2008. 152 pp.
Aquisição: Livraria da Travessa (Rio), abril de 2009. R$ 23.
Trecho:
Tiro fede. A enxofre, acho. Pólvora é metal estilhaçado, se não me engano, e metal deve ter qualquer coisa de enxofre. Nem que seja na alma. E a pele humana, quando ferida a bala, libera um sangue inicial pouco vermelho, com cheiro forte de açougue.
(p. 15)
Cara & Coroa
Quem é o autor? Provavelmente amigo de Sebastião Nunes, responsável pela capa e programação visual. Mineiro, com certeza. O livro parece ser do início dos 80, ainda fortemente influenciado pelos concretistas. A poesia visual funciona em algumas páginas, mas as melhores são aquelas em que o verso brilha sozinho.
Ficha: GONÇALVES DA COSTA, João Paulo. Cara & Coroa. Sabará: Edições Dubolso, s/d. 93 pp.
Aquisição: Livreiro do Largo da Carioca (Rio), 2008. R$ 1.
Trecho:
Decifras
a intenção
entre o fruto e a mão.
Disfarças
ligeiro
ser imerecedor do desvelo.
(p. 51)
A dinâmica das larvas
Rodrigo Lacerda faz questão de deixar bem claro (no posfácio) que seu segundo romance é apenas uma farsa, não um roman à clef, não uma parábola. Pena. Seria mais divertido um quem-é-quem do mercado editorial brasileiro. A tentativa de uma narrativa semialegórica sobre ciência, arte, sonhos e poder não se sustenta. Nas digressões para situar os personagens num mundo com “problemas sociais” ou coisa parecida, fica pior ainda. Talvez o problema seja parecer datado, o que para um livro de pouco mais de dez anos é grave. A estréia de lacerda, com “O mistério do leão rampante”, era menos pretensiosa e mais saborosa.
Ficha: LACERDA, Rodrigo. A dinâmica das larvas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. 1ª edição. 176 pp.
Aquisição: Feira do Livro da Cinelândia (Rio), abril de 2008. R$ 10.
Trecho:
Covas? Formigas-leão? Vasconcelos especulou se a coincidência das larvas devorarem suas vítimas em covas, como aquela na qual jogaram o Daniel bíblico, não teria sugerido o apelido bizarro da espécie. Mas o afã crescente do colega zoólogo não o deixou prosseguir em suas especulações, e logo a minuciosa descrição recomeçou.
(p. 29)
Cadernos de Televisão, nº 1 e 2
Os dois primeiros números da revista sofrem de alguns problemas em comum. Há falhas nas traduções, e um projeto gráfico que poderia ser bem melhor. Mas o maior problema está em artigos que, principalmente ao tratar de temas relativamente novos, como TV digital terrestre e o formato seriado na TV por assinatura, caem na armadilha do deslumbramento. Nesse sentido, lembram um pouco o “Novos rumos da cultura de mídia”.
Ponto alto no primeiro número: Robert C. Allen no primeiro número analisando as transformações no meio acadêmico no que se refere à pesquisa sobre TV. O segundo vale por Ron Simon, com o histórico das mulheres no comando; e por alguns insights de Morley e Hill sobre a relação entre TV e verdade.
Ficha: Cadernos de Televisão: revista quadrimestral de estudos avançados de televisão. Editor: Nelson Hoineff. Rio de Janeiro: Instituto de Estudos de Televisão, julho de 2007 (nº 1) e agosto de 2008 (nº 2). 103 e 111 pp. respectivamente.
Aquisição: Livaria do São Luiz, Largo do Machado (Rio), fevereiro de 2009. R$ 18 cada.
Trechos:
Em 1931, Fernand Léger “sonhava” com o filme de 24 horas de um casal qualquer num emprego qualquer. Aparelhos misteriosos permitem observá-los ’sem que eles saibam’ com uma inquisição visual aguda durante 24 horas sem nada deixar escapar. O trabalho, o silêncio, a vida íntima e de amor deles. Proketar o filme cru, sem controle algum. Acho que seria uma coisa tão terrível que o mundo acabaria pedindo socorro, como diante de uma catástrofe nacional”. Big Brother preencheu o programa de Léger e poucas catástrofes nacionais ocorreram no mundo…
(JOST, François. “As metamorfoses da criação televisiva”. Nº 1, p. 30)
Como Morgan segue mostrando, se contar histórias depende de repetições, então a extensão com que a televisão ficcional nos oferta com ensinamentos repetidos (quem somos nós, o que é bom e mau, etc.) não tem precedentes históricos. (…) As unidades de televisão consumidas parecem-se mais com um “segmento” (ou segmentos) de “fluxos” televisuais (cf. Williams 1974) por um período de audiência, do que um único, discreto programa.
(MORLEY, David. “Televisão e conhecimentos gerais. Descobrindo o mundo a partir dos telejornais”. Nº 2, p. 87)
Vathek
Ao contrário do “Otranto” de Walpole, este é um pioneiro que já surgiu maduro. A odisséia de horrores de Beckford tem a vantagem de partir de um vasto material de referência, as “Mil e uma noites”. Mas o autor vai além do deslumbre orientalista e cria uma bela fábula sobre a ambição pelo poder. É impossível não se identificar com o califa perverso que sacrifica sua alma pelo conhecimento dos mistérios infernais e descobre no fim que ao satisfazer todos os apetites acaba matando seu próprio desejo.
Ficha: BECKFORD, William. Vathek. Original: “Vathek”, 1786 (edição inglesa, trad. do francês por Samuel Henley). Trad. Hemrique de Araújo Mesquita. Porto Alegre: L&PM, 1986. 136 pp.
Aquisição: Livreiro do Largo do Machado (Rio), dezembro de 2008. R$ 5.
Trecho:
Vatherk, sem dizer palavra em resposta, concordou com a proposta materna, repetindo, enquanto fugia: “Nefando Giaour! Onde estás? Devorastes ou não aquelas pobres crianças? Onde estão teus sabres? Tua chave de ouro, teus talismãs?” Carathis, que, de tais interrogações, adivinhou uma parte da verdade, não teve dificuldade em perceber que tudo saberia logo que ele se acalmasse um pouco, na torre. Estava longe essa princesa de embaraçar-se com escrúpulos. Era tão malvada quanto o pode ser uma mulher, o que não é dizer pouco, pois em toda competição o sexo fraco timbra em ser superior.
(p. 51)
Dewey – Um gato entre livros
Durante mais de 260 páginas, a autora se divide entre descrições de como seu gato era fofinho e tediosas descrições da vida numa cidadezinha em Iowa. No meio disso, um bocado de lamúrias sobre como sua vida foi dura e ela sempre foi uma lutadora. Quando até as partes sobre o gatinho são chatas de doer, é porque o livro é muito ruim. Deu vontade de largar antes da página 50, mas fui até o fim.
Ficha: MYRON, Vicki, e WITTER, Brett. Dewey – Um gato entre livros. Rio de Janeiro: Globo, 2008. 272 pp.
Aquisição: Presente de amigo oculto da Gabriela (para a Alessandra), 2008.
Trecho:
Claro, poderíamos rearrumar a mobília, porém, uma vez fixado no teto, sabíamos que não havia muito, com exceção de velhice e artrose, que impedisse Dewey de caminhar por cima das lâmpadas. Quando os gatos não sabem que algo existe, é fácil mantê-los afastados. Se eles não conseguem chegar a alguma coisa e é algo que eles resolvam querer, é quase impossível. Gatos não são preguiçosos. Eles se esforçam por frustrar até os planos mais elaborados.
(P. 128)
O castelo de Otranto
Clássico, mas é um daqueles livros de leitura obrigatória que valem mais pela compreensão que trazem do que pela qualidade intrínseca. Walpole está muito longe do que um dia viria a ser a grande literatura de fantasia. E isso é de certa forma compreensível, em se tratando de um desbravador. Ainda está muito marcado pelo teatro (tanto que suas referências no prefácio são Shakespeare e Voltaire), com seus longos diálogos e cenas que parecem construídas para o palco. As intervenções sobrenaturais beiram o ridículo, a começar pelo elmo gigante do primeiro capítulo. As mudanças de humor dos personagens são inverossímeis. Mesmo assim, vale a leitura.
Ficha: WALPOLE, Horace. O castelo de Otranto. Original: “The castle of Otranto”, 1764. Trad. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Nova Alexandria, 2005. 136 pp.
Aquisição: Primavera dos Livros, Museu da República (Rio), outubro de 2008. R$ 20.
Trecho:
Deu-lhe uma espécie de alegria momentânea perceber um tênue raio de luar brilhando desde o teto da cripta, que parecia ter cedido (…). Avançou rapidamente para a abertura, quando percebeu uma forma humana de pé rente à parede.
Deu um grito, acreditando ser o fantasma do seu falecido Conrado. A figura, avançando, disse numa voz cordata:
— Não se assuste, senhora; não lhe farei mal.
(p. 41)
Novos rumos da cultura da mídia
Alguns bons ensaios, mas a maioria traz em maior ou menor grau todos os vícios que me causam horror no ambiente acadêmico: o deslumbramento com novidades midiáticas e tecnológicas, a ausência de pensamento crítico, a presunção diante de assuntos que o autor nitidamente desconhece, o name dropping, a necessidade desesperada de citar autores da moda, o jogo de palavras com status de conceito.
E além de tudo isso, como alguém cita a Wikipedia como fonte de informação?
Marcelo Kischinhevsky faz um trabalho semijornalístico (e talvez a melhor parte seja a reportagem). Valério Brittos e Luciano dos Santos reúnem dados interessantes sobre o mercado de TV no Brasil. Suzy dos Santos faz uma aproximação curiosa com o fenômeno do coronelismo. O resto, quase todo, é bobagem.
Ficha: FREIRE FILHO, João, e HERSCHMANN, Micael (org.). Novos rumos da cultura da mídia. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007. 309 pp.
Aquisição: UFRJ (Rio), dezembro de 2008. R$ 25.
Trecho:
De fato, minha hipótese é de que a parte mais essencial desse núcleo cultural-discursivo da cibercultura repousa numa espécie de mitologia da comunicação total. No horizonte da cultura “ciber”, o maior imperativo social é a comunicação. Como diria Lucien Sfez, com acento algo apocalíptico, “a comunicação tornou-se a Voz única; só ela pode unificar um universo que perdeu no trajeto qualquer outro referente (1992: 21). No domínio da cibercultura, em última instância, tudo se converte em comunicação e informação, sendo o pós-humano o ser “conectivo” por excelência.
(Erick Felinto, p. 54)
Contos plausíveis
Deve haver algo errado comigo. Eu adorei esse livro. Mas tentei contar um dos contos como anedota e ninguém achou a menor graça. Foi constrangedor. A Alessandra achou fraco.
É Drummond no que tem de melhor: lírico, simples e profundo. Algumas das histórias são tudo aquilo que eu gostaria de ter escrito. E ainda tem o jogo de ficar procurando que ilustração foi escrita para que conto, já que elas foram propositalmente embaralhadas.
Ficha: DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Contos plausíveis. lustrações de Irene Peixoto e Marcia Cabral. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981. 160 pp.
Aquisição: Livreiro da Graça Aranha (Rio), novembro de 2008. R$ 5.
Trecho:
Interrogado pelo comissário, jurou inocência. Inquirido pelo delegado, voltou a jurar. Não acreditaram. Foi indiciado, pronunciado, julgado, condenado. Sempre gritando que estava inocente.
No fim de cinco anos de prisão, acabou convencido de que era mesmo culpado. Pediu que o julgassem novamente, para agravamento de pena. Em vez disto, soltaram-no porque findara a pena.
Saiu confuso, já não tinha certeza se era culpado ou inocente, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Como toda gente.
(p. 63)
Cinema Brasileiro: 1995 – 2005
De certa forma, este livro resume o que é a indústria cinematográfica brasileira hoje. De um lado, algumas pessoas preocupadas em fazer as contas fecharem, conscientes de que não há como sustentar um cinema sem público. Do outro, críticos e cineastas defendendo um modelo de subvenção estatal sem qualquer compromisso, querendo liberdade para o artista genial às custas do dinheiro do povo.
Ficha: CAETANO, Daniel (org.). Cinema Brasileiro: 1995 – 2005 – Ensaios sobre uma década. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005. 351 pp.
Aquisição: Primavera dos Livros, no Catete (Rio), novembro de 2008. R$ 35.
Trecho:
Não acredito que o mundo gire em torno do dinheiro, como querem nos fazer acreditar. Não vejo problema algum em fazer filmes relevantes para 50 mil pessoas, usando um dinheiro que vem de toda forma do Estado, pois acredito realmente que o cinema cumpra um papel na afirmação de um país. O que acho esquisito é o Estado financiar o mercado, quando não consegue sequer regulá-lo (ainda).
(Entrevista com Paulo Sacramento, p. 324)
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